O caso Jeffrey Epstein continua a chocar o mundo pela monstruosidade dos crimes e pelo envolvimento de pessoas influentes. O sofrimento das vítimas provoca indignação em qualquer ser humano decente e levanta uma pergunta inevitável diante de atos inimagináveis e abomináveis: qual seria a punição adequada? Prisão perpétua? Castração química? Nenhuma pena parece capaz de reparar os danos causados às vítimas. 

Melinda Gates afirmou que ele era “o mal personificado”. A declaração suscita uma questão mais ampla: qual a diferença entre maldade deliberada e doença psiquiátrica? 

Como essa não é minha área de pesquisa, convidei a renomada psiquiatra Verônica Ciulla, de Porto Alegre, para refletirmos sobre os limites entre doença e responsabilidade moral. Segue sua excelente análise: 

“O caso Epstein escancarou: a banalização do poder quando dissociado da ética, a instrumentalização de pessoas como objetos e a dificuldade social em diferenciar maldade estruturada de doença mental. 

Psicopata não é ‘doente mental’ no sentido clássico. Essa é a primeira ruptura conceitual essencial. Não é diagnóstico formal no DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), mas se aproxima do Transtorno de Personalidade Antissocial com traços de ausência de empatia, culpa superficial ou inexistente, manipulação instrumental, encanto superficial, predação relacional e capacidade intacta de julgamento da realidade. 

O psicopata sabe o que faz. Entende que é errado, escolhe fazer e não sofre por isso. Há consciência, sem consciência moral internalizada. 

Na doença mental (de forma geral), como na depressão maior, transtorno bipolar, esquizofrenia, transtornos de ansiedade etc., existe sofrimento psíquico, existe perda parcial de controle ou distorção da realidade. A pessoa não escolhe adoecer. 

O erro social frequente é pensar: ‘Algo tão monstruoso só pode ser doença.’ Nem sempre. 

Numa análise psicodinâmica possível, podemos pensar em narcisismo patológico extremo (grandiosidade, sentimento de exceção, uso do outro como extensão narcísica e erotização do poder) e em uma relação com o objeto marcada por abuso sistemático (desumanização, dissociação do sofrimento do outro, excitação ligada ao controle). Não é impulsividade desorganizada; é estrutura fria. É perigoso medicalizar o mal. 

Quando chamamos tudo de ‘doença’, diluímos a responsabilidade. Ao mesmo tempo, é necessário diferenciar sofrimento psíquico genuíno de perversão estruturada. O psicopata não tem conflito neurótico. Ele tem ausência de conflito moral. Essa é uma diferença estrutural fundamental. 

Talvez o maior erro coletivo seja acreditar que toda crueldade nasce da loucura. Há algo de reconfortante em imaginar que o mal extremo é fruto de um cérebro doente, porque assim ele nos parece distante, excepcional e quase acidental. Mas nem toda perversão é delírio. Nem toda violência é desorganização psíquica. 

Existe uma forma de funcionamento em que o outro deixa de ser sujeito e passa a ser instrumento. Não há ruptura com a realidade. Há ruptura com a alteridade. 

Na doença mental vemos sofrimento, fragmentação e perda de controle. Na psicopatia estruturada, vemos frieza, cálculo e ausência de culpa. Confundir essas duas coisas não é apenas um erro técnico; é um erro moral. 

Quando patologizamos indiscriminadamente o mal, corremos o risco de dissolver a responsabilidade. Quando demonizamos todo sofrimento psíquico, reforçamos estigmas contra milhões de pessoas que lutam diariamente para viver com dignidade apesar de seus transtornos. 

Talvez o desafio contemporâneo não seja apenas compreender a mente humana, mas sustentar a ideia de que consciência implica escolha, e escolha implica responsabilidade. 

Nem todo desvio é doença, e nem toda doença é desvio moral. Reconhecer essa diferença é um ato de maturidade social.” 

Patricia Pranke 
Professora titular da Faculdade de Farmácia da UFRGS 

Verônica Ciulla 
Médica psiquiatra e psicoterapeuta 

 

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