O risco de seguir modismos alimentares divulgados nas redes sociais
Dietas da moda ganham visibilidade nas redes sociais por meio de promessas de emagrecimento rápido, redução da inflamação, melhora do humor e prevenção de diferentes doenças. Muitas dessas propostas, entretanto, não possuem fundamentação científica suficiente e podem impor restrições desnecessárias.
Quando são realizadas sem orientação profissional, dietas radicais ou extremamente restritivas podem provocar desequilíbrios nutricionais. A exclusão de grupos alimentares inteiros pode reduzir a ingestão de proteínas, fibras, vitaminas e minerais necessários ao funcionamento adequado do organismo.
Dieta anti-inflamatória exige retirar leite e glúten?
Uma alimentação com características anti-inflamatórias não exige, por definição, a retirada do leite ou do glúten. Essa interpretação aparece com frequência em versões simplificadas divulgadas nas redes sociais, nas quais determinados alimentos são classificados como prejudiciais para todas as pessoas.
O leite e seus derivados podem causar problemas em pessoas com alergia à proteína do leite ou intolerância à lactose. Mesmo nesses casos, o grau de restrição depende do diagnóstico e da resposta individual. Para quem não apresenta essas condições, os laticínios podem fornecer proteínas, cálcio, vitamina B12 e outros nutrientes.
A exclusão do glúten é necessária para pessoas com doença celíaca e pode ser indicada em casos devidamente avaliados de alergia ao trigo ou sensibilidade não celíaca ao glúten ou ao trigo. Para a população sem essas condições, não existem evidências de que o glúten seja necessariamente inflamatório ou prejudicial.
Retirar o glúten sem planejamento também pode diminuir o consumo de fibras e cereais integrais. Alguns produtos industrializados sem glúten apresentam menor quantidade de fibras e micronutrientes, além de maiores proporções de gorduras, açúcares ou sódio.
O estudo de Harvard sobre glúten e diabetes
Uma análise conduzida por pesquisadores de Harvard e apresentada em 2017 encontrou uma associação entre menor consumo de glúten e maior risco de diabetes tipo 2. Esse resultado, porém, não comprovou que eliminar o glúten cause diabetes.
O estudo foi observacional e uma possível explicação para o resultado é que as pessoas com menor ingestão de glúten também consumiam menos fibras provenientes de cereais integrais. Portanto, a pesquisa não deve ser interpretada como uma recomendação para aumentar o consumo de glúten, mas como um alerta contra restrições alimentares sem necessidade e sem substituições nutricionalmente adequadas.
Alimentação e saúde mental
A alimentação pode contribuir para a saúde do cérebro e para o funcionamento do metabolismo, mas nenhum alimento isolado trata ansiedade, depressão ou outros transtornos mentais. Os benefícios dependem do padrão alimentar como um todo, da frequência de consumo e das necessidades de cada pessoa.
Vegetais de folhas verdes, frutas, legumes, cereais integrais, nozes, sementes, abacate, peixes e alimentos fermentados podem fazer parte de uma alimentação equilibrada. Especiarias e chocolate com maior teor de cacau também podem ser incluídos, considerando as quantidades e as condições individuais.
Esses alimentos oferecem fibras, vitaminas, minerais, gorduras insaturadas e compostos bioativos relacionados à saúde geral. Ainda assim, não devem ser apresentados como soluções isoladas para melhorar o humor, reduzir a ansiedade ou substituir tratamentos médicos e psicológicos.
Antes de excluir alimentos, procure avaliação
Sintomas como desconforto abdominal, alterações intestinais, cansaço ou mudanças de peso podem ter diferentes causas. Antes de retirar o leite, o glúten ou qualquer outro grupo alimentar, é aconselhável procurar avaliação médica e nutricional.
No caso de suspeita de doença celíaca, iniciar uma dieta sem glúten antes da investigação pode interferir nos resultados dos exames. A melhor escolha é adotar uma alimentação variada, equilibrada e baseada em evidências, considerando as necessidades clínicas de cada pessoa.
